O ecossistema do ensino superior privado angolano atravessa uma fase de profundas contradições estruturais. Nos portais de recrutamento e editais de selecção, a fasquia de exigência é colocada nos mais altos patamares da meritocracia académica: exige-se o grau de Mestre e, com crescente naturalidade, o de Doutor, além de um currículo robusto, com publicações indexadas e experiência pedagógica comprovada.
Por Domingos Casimiro | Opinião
Este cenário escancara um paradoxo inquietante: investe-se uma vida inteira na aquisição de capital científico, em anos de leituras exaustivas, investigações de campo, defesa de teses e custos avultados de pós-graduação para, no fim, deparar-se com uma remuneração que desvaloriza o próprio cerne da produção do conhecimento.
O contraste torna-se ainda mais caricato quando olhamos para a saúde financeira das próprias instituições. Anualmente, assiste-se a um ciclo previsível e implacável: as propinas e os emolumentos estudantis sofrem actualizações e aumentos sucessivos para mitigar os efeitos da inflação e justificar a sustentabilidade empresarial dos recintos académicos. Contudo, essa injecção constante de receita nunca se reflecte na folha salarial dos docentes.
Enquanto a facturação institucional sobe ao ritmo da conjuntura económica, os salários dos Mestres e Doutores permanecem estagnados, congelados numa lógica de exploração onde o lucro é privatizado e o sacrifício intelectual é socializado. Com salários fixados na faixa dos 150 mil a 200 mil kwanzas, torna-se aritmeticamente insustentável exigir dedicação exclusiva à docência e à investigação.
Face ao custo de vida galopante, este posicionamento salarial empurra obrigatoriamente o professor para a “turbo docência”, uma maratona exaustiva por múltiplos contratos em diferentes instituições para conseguir fechar as contas no final do mês.
É neste ponto que a equação se torna tragicómica e desumana: exige-se que o docente produza ciência de alto nível, publique em revistas indexadas e mantenha métricas de excelência internacional, mas sem qualquer tipo de financiamento institucional para a investigação. O professor vê-se enredado numa dupla exigência paradoxal: tem de produzir artigos científicos sem condições laboratoriais ou orçamentais e sem tempo livre, pois passa os dias a correr de uma faculdade para outra apenas para garantir a própria sobrevivência financeira.
A pesquisa científica, que deveria ser o motor do desenvolvimento nacional, é tratada como um passatempo de fim-de-semana de um profissional exausto. Como reflexo directo desta degradação sistémica, assiste-se a um fenómeno sintomático: a banalização da figura do docente e do próprio ensino superior, que rapidamente desceu aos fóruns da ironia e virou motivo de anedota e piada nas redes sociais.
A imagem social do professor universitário, outrora símbolo máximo de respeitabilidade intelectual, transformou-se, no imaginário digital, num retrato caricato de precariedade, onde o “docente universitário” mal consegue gerir as despesas básicas do quotidiano.
Quando a sociedade passa a ridicularizar a condição económica de quem forma os seus quadros, é o próprio futuro colectivo que está a ser desacreditado. Os jovens licenciados olham para o percurso académico e questionam-se se compensa investir anos e recursos num Mestrado ou Doutoramento para receber um vencimento desproporcional e virar alvo de chacota pública.
O ensino superior privado em Angola não pode continuar a erguer os seus pilares sobre a exploração disfarçada de rigor e sobre o esmagamento do investigador. A exigência de títulos elevados deve corresponder a uma dignificação salarial proporcional e a um investimento real em condições de pesquisa. Afinal, uma sociedade que desvaloriza e ridiculariza o pensamento crítico está, invariavelmente, a comprometer a sua própria soberania intelectual e o seu desenvolvimento sustentável.
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