Ao longo de séculos, as águas do Rio Nilo foram o berço de civilizações e uma garantia de vida para a região. Hoje, a bacia hidrográfica transformou-se num dos cenários geopolíticos mais delicados do mundo. O que no passado era gerido à sombra de acordos do período colonial deu lugar a um impasse profundo entre nações vizinhas. No fundo, a questão deixou de ser apenas a gestão de um rio partilhado: tornou-se um debate sobre o direito de um país crescer sem pôr em risco a sobrevivência de outro.
Para a Etiópia, aproveitar o Nilo Azul significa acender lâmpadas, movimentar indústrias e criar oportunidades para combater a pobreza. No entanto, quem olha para o rio a partir da sua foz vê o cenário com enorme apreensão. No Egito, um país profundamente árido onde quase toda a água doce depende do Nilo, a gestão da barragem sem um acordo consensual desperta receios quanto à segurança alimentar, ao abastecimento das cidades e à agricultura. Aquilo que em Adis Abeba é visto como um passo legítimo rumo ao futuro é sentido no Cairo como uma ameaça à estabilidade da sua população.
As dificuldades nas negociações e o esgotamento dos velhos modelos de controlo mostram que soluções rígidas ou unilaterais já não respondem aos desafios da gestão dos recursos partilhados no continente africano.
A estabilidade no Corno de África não se constrói quando um lado ganha e o outro perde. O desenvolvimento da região depende de uma cooperação assente no respeito mútuo e numa gestão equilibrada dos recursos. Afinal, a energia gerada nas montanhas da Etiópia e a segurança hídrica defendida no Egito não precisam de ser forças opostas; podem constituir o ponto de partida para um futuro mais integrado e sustentável para os povos do Nilo.
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