OPINIÃO: O Nilo no centro da tempestade geopolítica africana

Ao longo de séculos, as águas do Rio Nilo foram o berço de civilizações e uma garantia de vida para a região. Hoje, a bacia hidrográfica transformou-se num dos cenários geopolíticos mais delicados do mundo. O que no passado era gerido à sombra de acordos do período colonial deu lugar a um impasse profundo entre nações vizinhas. No fundo, a questão deixou de ser apenas a gestão de um rio partilhado: tornou-se um debate sobre o direito de um país crescer sem pôr em risco a sobrevivência de outro.

Por Domingos Casimiro | Opinião

Imagem: Rio Nilo 
 
A busca da Etiópia por energia e autonomia não é um capricho político. Pelo contrário, trata-se de uma acção concreta para responder às necessidades de milhões de famílias que ainda vivem sem eletricidade. A construção da Grande Barragem do Renascimento Etíope surge, assim, como uma grande obra de infra-estrutura, mas também como um gesto de afirmação soberana que procura deixar para trás as limitações impostas pelos tratados de 1929 e 1959.

Para a Etiópia, aproveitar o Nilo Azul significa acender lâmpadas, movimentar indústrias e criar oportunidades para combater a pobreza. No entanto, quem olha para o rio a partir da sua foz vê o cenário com enorme apreensão. No Egito, um país profundamente árido onde quase toda a água doce depende do Nilo, a gestão da barragem sem um acordo consensual desperta receios quanto à segurança alimentar, ao abastecimento das cidades e à agricultura. Aquilo que em Adis Abeba é visto como um passo legítimo rumo ao futuro é sentido no Cairo como uma ameaça à estabilidade da sua população.

As dificuldades nas negociações e o esgotamento dos velhos modelos de controlo mostram que soluções rígidas ou unilaterais já não respondem aos desafios da gestão dos recursos partilhados no continente africano.

A estabilidade no Corno de África não se constrói quando um lado ganha e o outro perde. O desenvolvimento da região depende de uma cooperação assente no respeito mútuo e numa gestão equilibrada dos recursos. Afinal, a energia gerada nas montanhas da Etiópia e a segurança hídrica defendida no Egito não precisam de ser forças opostas; podem constituir o ponto de partida para um futuro mais integrado e sustentável para os povos do Nilo.


Sobre o autor

 
Domingos Casimiro é historiador e pesquisador especializado em Hidropolítica Histórica e Geopolítica Africana. Escreve semanalmente artigos de opinião no Jornal Académico.



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