OPINIÃO: A prova de recurso revela o fracasso do estudante ou as fragilidades do sistema de ensino? Entenda

A prova de recurso foi concebida como um mecanismo excepcional no processo de ensino e aprendizagem, permitindo que o estudante demonstre ter superado dificuldades que o impediram de obter aproveitamento na avaliação regular. No entanto, quando um número elevado de estudantes é, de forma recorrente, encaminhado para a prova de recurso, tanto no ensino médio como no superior, torna-se legítimo questionar se o problema reside apenas nos estudantes. Se a maioria de uma turma reprova na mesma disciplina, a reflexão deve abranger também a eficácia das metodologias de ensino, dos instrumentos de avaliação e da prática pedagógica do docente.

Por Adriano Sumbo | Opinião

É verdade que muitos estudantes contribuem para o seu próprio insucesso por falta de dedicação, absentismo ou outras circunstâncias. Contudo, não é pedagogicamente aceitável atribuir-lhes toda a responsabilidade pelos maus resultados. A qualidade do processo educativo depende igualmente da capacidade do professor para ensinar, motivar e avaliar de forma justa, bem como das condições criadas pelas instituições para garantir uma aprendizagem efectiva.

Também preocupa o facto de, em alguns meios académicos, persistirem suspeitas de que o elevado número de estudantes encaminhados para a prova de recurso possa estar relacionado com as taxas cobradas nesse processo. Embora não existam provas que sustentem essa percepção, a recorrência dessas suspeitas evidencia a necessidade de maior transparência, fiscalização e prestação de contas por parte das instituições de ensino, de modo a preservar a credibilidade dos processos de avaliação.

Uma escola de qualidade não se mede pelo número de reprovações, mas pela sua capacidade de promover aprendizagens sólidas, com rigor, justiça e responsabilidade. O "recurso", como é famosamente conhecido, deve servir para recuperar conhecimentos e oferecer uma nova oportunidade ao estudante, e não para normalizar o fracasso escolar ou alimentar desconfianças sobre o sistema de avaliação.

Enquanto as reprovações em massa continuarem a ser encaradas como algo natural, permanecerá uma questão incontornável: estaremos a avaliar verdadeiramente a aprendizagem dos estudantes ou a expor as fragilidades do próprio sistema de ensino? Em última análise, estaremos a formar cidadãos competentes ou apenas a perpetuar um modelo que precisa, com urgência, de ser repensado?



Sobre o autor

Adriano Sumbo é licenciado em Ciência Política pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto.

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1 Comentários

  1. Li o artigo pensando na minha possível ida ao recurso da cadeira de Contabilidade. Vou fazer o exame daqui a 3 dias, tenho me preparado e espero sinceramente dispensar a cadeira. O recurso exige custos financeiros e as probabilidades vão ficando menores.

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