Instituições públicas de investigação científica continuam fora do sistema universitário

Mapeamento da FUNDECIT aponta falta de investigadores doutorados, laboratórios desactualizados e diversidade geográfica limitada como principais constrangimentos do sistema

Por Lihuleno Daniel • Jornal Académico 

Angola tem cinco instituições de investigação científica e desenvolvimento reconhecidas no Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (SNCTI), e nenhuma pertence ao sector do ensino superior. O dado consta do mapeamento realizado pela Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FUNDECIT), que caracteriza as capacidades, os recursos humanos e as infraestruturas das entidades que integram o sistema.

O levantamento abrange o Centro Nacional de Investigação Científica (CNIC), o Instituto Nacional de Investigação em Saúde (INIS), o Instituto Nacional de Investigação Pesqueira e Marinha (INIPM), o Instituto de Investigação Veterinária (IIV) e o Instituto de Investigação Agronómica (IIA). Três têm sede em Luanda e duas no Huambo. São, segundo o documento, as únicas actualmente reconhecidas nos termos do Decreto Presidencial n.º 261/21, de 3 de Novembro.

Universidades à margem da investigação formal

A ausência de instituições universitárias entre as cinco entidades mapeadas levanta questões sobre a articulação entre a investigação científica e a formação académica. As universidades são responsáveis pela formação dos futuros investigadores do país, mas não figuram, por enquanto, no mapa oficial da ciência angolana.

O mapeamento regista, ainda assim, experiências de colaboração. O INIS, por exemplo, mantém parcerias com universidades angolanas e estrangeiras na investigação biomédica e na formação em saúde, e regista a conclusão de teses de doutoramento e mestrado, além de monografias de licenciatura. São sinais de ligação entre os dois mundos, mas que decorrem de iniciativas pontuais e não de uma integração estrutural.

Progressos e limitações

A comparação com dados recolhidos em 2020 revela evoluções distintas entre as instituições. No INIS, o número de projectos passou de sete para 78 e o de artigos científicos publicados subiu de seis para 75, um crescimento expressivo. No Instituto Nacional de Investigação Pesqueira e Marinha, o retrato é menos positivo: o número de artigos científicos baixou de oito para sete e as infraestruturas são assinaladas como necessitando de modernização.

O mapeamento identifica desafios transversais ao sistema. Entre as prioridades apontadas estão a abertura de mais vagas para a carreira de investigador, o reforço do número de profissionais com grau de doutor e a retenção de quadros qualificados, uma questão que, em Angola como noutros países africanos, se cruza com a fuga de talentos para o exterior.

O que a FUNDECIT recomenda

Na análise final, a FUNDECIT reconhece progressos na actividade científica, nas parcerias e na diversificação das fontes de financiamento, mas sublinha que persistem limitações estruturais. O documento recomenda o reforço das equipas de investigação, a melhoria das infraestruturas laboratoriais e a realização de novos mapeamentos à medida que mais instituições venham a integrar o sistema nacional.


Sobre o autor


Lihuleno Daniel é editor e repórter do Jornal Académico, especializado na cobertura do ensino superior, ciência, investigação científica e políticas públicas para a educação em Angola.

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