Propinas aumentaram quase 93% em quatro anos, mas universidades continuam no vermelho

O custo de estudar numa universidade privada em Angola aumentou significativamente desde 2023, num período em que as famílias também perderam poder de compra. Os reajustes acumulados das propinas chegaram a 92,76% entre os anos lectivos 2023/2024 e 2026/2027, segundo dados citados pelo jornal Expansão. A subida, contudo, não impediu que várias instituições continuassem a enfrentar dificuldades financeiras e perda de estudantes.

Por Lihuleno Daniel • Jornal Académico

A evolução dos preços resulta de sucessivas actualizações. As propinas subiram 10,62% em 2023/2024, 30,16% em 2024/2025, 20,74% em 2025/2026 e mais 10,88% para o actual ano académico. O mecanismo de aumento foi estabelecido pelo Decreto Executivo Conjunto n.º 187/23, que relaciona os aumentos com a inflação homóloga registada em Maio.

Famílias perdem capacidade de suportar despesas

Para quem paga a formação, no entanto, o impacto é maior quando os valores são vistos em Kwanzas. Um dos exemplo está no curso de Medicina da Universidade Privada de Angola (UPRA), onde o Jornal Académico calculou, em Agosto de 2025, que um estudante passaria gastar mais de 15,2 milhões de Kwanzas ao longo dos seis anos de licenciatura, considerando propinas e principais taxas académicas. Só a mensalidade da opção passou de 211.140 para 254.930 Kz.

A subida dos gastos com os estudos acontece num contexto em que os agregados familiares têm menos margem financeira para suportar despesas de longa duração. Além das mensalidades, os estudantes precisam de pagar transporte, alimentação, materiais académicos e, em muitos casos, alojamento. Para uma família que financia integralmente a educação de um filho, cada reajuste anual representa uma nova pressão sobre o orçamento.

Apesar dos aumentos, centros universitários continuam no negativo

O efeito pode ser sentido também pelas próprias instituições. De acordo com o Expansão, a queda de poder de compra dos lares tem contribuído para a redução do número de discentes em algumas instituições particulares. Ou seja, um estabelecimento de ensino pode cobrar mais por estudante e, ainda assim, não aumentar as suas receitas na mesma proporção se o número de alunos diminuir.

É neste ponto que surge o principal paradoxo do sector: as propinas aumentam, mas a sustentabilidade financeira da academia continua  ameaçada. Paulo Múrias, sócio-gerente da Universidade Lusíadas de Angola, ouvido pelo Expansão, defende que o valor cobrado actualmente não acompanha os custos das instituições.

“Antes de 2014, por exemplo, a propina média era de 300 USD (perto de 30 mil Kz ao câmbio de 2014) e agora temos um valor médio de 60 USD”, afirmou Múrias ao Expansão, numa comparação que procura demonstrar a perda do valor real das receitas das universidades após a desvalorização do kwanza.

O responsável defende igualmente maior liberdade na definição dos preços. “A partir da altura em que optámos por ser um mercado livre, nós temos de aceitar a concorrência. E a concorrência passa, obrigatoriamente, por deixar que nós possamos equilibrar o valor das propinas em função do número de alunos que pretendemos ter e a qualidade da formação que nos propomos dar”, sustentou.


Sobre o autor


Lihuleno Daniel é editor e repórter do Jornal Académico, especializado na cobertura do ensino superior, ciência, investigação científica e políticas públicas para a educação em Angola.

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