OPINIÃO: Professores e enfermeiros disfarçados de auxiliares de limpeza. Quem nos vai formar e cuidar? Entenda

Recentemente, quando o relógio marcava 19h00 em Angola, acompanhei uma informação divulgada por um órgão de comunicação social do sector privado, no seu principal serviço noticioso da noite. Travata-se do anúncio de um concurso público que teve lugar na província capital, Luanda. 

Por Kamaluvidi Baltazar | Opinião

Segundo aquele meio informativo, para tristeza total minha, outra vez, um grupo composto por vários técnicos superiores lutava fervorosamente por uma vaga de emprego na categoria de Auxiliar de Limpeza. Custou-me acreditar que um número elevado de cidadãos com o grau superior clamava, assim quase que aos gritos, por uma oportunidade para tratar da limpeza de uma escola ou hospital e, em contrapartida, receber os seus magros ordenados. 

Depois de acompanhar toda aquela confusão, questionei-me inúmeras vezes: como é possível que jovens e pessoas de outras idades, que com inúmeros sacrifícios e dificuldades frequentaram o ensino superior, sejam hoje vistos como pessoas com baixo nível de escolaridade, devido à enorme vergonha por que passam sempre que são anunciados concursos públicos?

Penso que faz pouco sentido continuar a formar quadros com tanta avidez, quando sabemos que as chances futuras de acabarem no desemprego são gigantes. Torna-se mesmo, como diria o outro, desnecessário!

Assistir a indivíduos que passaram longos anos à procura de um diploma a limpar o chão da casa de banho de uma escola, de um hospital ou do gabinete de alguém que, se calhar, não foi colocado naquele posto de trabalho por mérito, mas por influência de um conhecido — o que, aliás, é uma realidade em muitos países africanos, particularmente em Angola — é doloroso. É uma lástima.

Precisamos, urgentemente, valorizar os quadros e proporcionar trabalhos de acordo com o mérito ou a área de formação de cada um. É um processo que pode até ser penoso, tendo em conta o número assustador de licenciados jogados à sua sorte que existe. Mas é possível, sim, organizar concursos públicos com as categorias disponíveis e os seus respectivos concorrentes. Inverter essa situação requer coragem, vontade e urgência. Caso contrário, continuaremos a ter, sem sombra de dúvidas, professores a desempenharem até papel de enfermeiro, e vice-versa.

Se professores e enfermeiros continuarem a disfarça-se de auxiliares de limpeza em concursos, nasce uma questão que não se cala. Afinal, quem formará novos quadros e cuidará da nossa saúde? 


Sobre o autor

Kamaluvidi Baltazar é estudante do curso de Comunicação Social da Universidade Agostinho Neto. Escreve sobre ensino superior, desemprego e falta de conexão entre a academia e o mercado de trabalho.

Enviar um comentário

0 Comentários