A Umbanda é uma religião eclética e pragmática. Consolidada no final da década de 1920, ela resulta do encontro entre o catolicismo popular, o animismo afro-brasileiro e o espiritismo, sendo considerada por muitos a única religião verdadeiramente brasileira. As suas primeiras bases, porém, chegaram ao Brasil com os colonizadores portugueses e os escravizados africanos, e a própria palavra "Umbanda" é de origem angolana: provém do kikongo, língua bantu nativa de Angola, e significa "a arte de curar", uma designação herdada da "magia" com que os curandeiros africanos tratavam os seus semelhantes, a partir da sua ligação com uma ordem cósmica.
Por Carlos Conceição | Opinião
Vale a pena recordar este percurso porque é precisamente esta vocação terapêutica, mais do que a dimensão estritamente devocional, que justifica que a Umbanda seja hoje também objecto de interesse científico. A pergunta que a academia deveria fazer-se com mais frequência é simples: pode um sistema de crenças, com a sua lógica ritual e simbólica própria, produzir efeitos reais sobre a saúde mental de quem nele participa?
A literatura aponta que sim, ainda que com as devidas cautelas. Desde finais do século XIX que médicos, sobretudo psiquiatras, se interessam pelos cultos afro-brasileiros, procurando perceber até que ponto estas práticas, em grande parte originárias de África, poderiam afectar a saúde mental dos ex-escravizados e dos seus descendentes. Até à década de 1930, esses cultos, tal como outras religiões minoritárias, constituíram uma preocupação central da psiquiatria da época, num interesse nem sempre isento de preconceito.
Nesse universo religioso, a saúde mental é encarada de duas formas: pode resultar de um mau relacionamento com as entidades sobrenaturais que compõem o panteão dos cultos, exigindo, nesse caso, rituais sacrificiais que restabeleçam o equilíbrio; ou pode resultar da acção nociva de terceiros que, zangados com o indivíduo, "manipulam" forças negativas contra ele (Silva, 2007). Segundo Segato (1995), a eficácia psicológica destas práticas mágico-religiosas é geralmente proporcional ao grau de participação numa comunidade afro-brasileira, ou terreiro, sendo através dessa participação consistente que os dispositivos de fé se instalam e operam sobre a psique. Os terreiros funcionam, nesta leitura, como espaços de continuidade da vida social, onde se integram o paciente, o público e o médium; este último responsável pelo contacto com a entidade durante o ritual.
Convém, por isso, não opor o campo psiquiátrico e o campo religioso como se fossem inimigos. Ambos partilham o mesmo objectivo: aliviar o sofrimento humano e ajudar as pessoas a viverem da melhor forma possível as mazelas da condição humana. Fazem-no por vias diferentes: um assente em princípios da psicologia, da neurociência e da medicina, com recurso a terapia, fármacos e intervenções baseadas em evidência científica; o outro através da fé, da comunidade religiosa e das práticas rituais, mas respondem, no fundo, a uma mesma necessidade humana de sentido e de cura.
Para Angola, esta discussão tem um peso particular. A crise de valores sociais, morais e éticos que atravessa a sociedade angolana actual, associada a factores sociais, económicos e financeiros, tem levado diferentes segmentos da população a procurar, em terceiros ou em forças sobrenaturais, a realização pessoal e o equilíbrio que nem sempre encontram noutros circuitos. Compreender o papel terapêutico de práticas como a Umbanda — e de outras religiões de matriz africana mais próximas da realidade angolana — não é um exercício de curiosidade académica: é uma questão que toca directamente a saúde pública.
Os rituais e a crença na comunicação com entidades espirituais oferecem, a quem neles participa, um espaço para lidar com emoções complexas como a perda e o luto, e um método alternativo para construir relacionamentos saudáveis consigo mesmo e com os outros. Mais do que isso, a Umbanda proporciona aos seus adeptos oportunidades concretas de envolvimento através da caridade e do auxílio aos necessitados, um envolvimento que, ao reforçar a auto-estima e o sentido de propósito, pode contribuir para reduzir sintomas de ansiedade e de depressão.
Importa, ainda assim, evitar generalizações reducionistas. A relação entre religião e saúde mental é relevante, mas variada, e as experiências individuais podem divergir significativamente: a Umbanda, como qualquer sistema de crenças, tem impactos diferentes em pessoas diferentes. É justamente por isso que o tema exige mais investigação séria — e menos preconceito — da parte das instituições de ensino superior, sobretudo nas áreas da psicologia, da teologia e das ciências sociais.
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