OPINIÃO: O garimpeiro escolar: quando o professor vira sobrevivente do sistema

Um olhar crítico sobre a docência em Luanda

Artigo de opinião de Adriano Sumbo, licenciado em Ciência Política pela Universidade Agostinho Neto

O sistema educativo angolano carrega fragilidades históricas profundas, resultantes de factores como a guerra civil, a instabilidade económica, a expansão desordenada do ensino e a ausência de políticas educativas eficazes. Nesse contexto, emergiu o fenómeno do chamado “garimpeiro escolar”, expressão usada em Luanda para designar professores que leccionam simultaneamente em várias instituições, muitas vezes sem vínculos laborais estáveis, movidos mais pela necessidade de sobrevivência do que por opção pedagógica.

Esta prática, embora contribua para suprir carências imediatas de docentes, levanta sérias preocupações quanto à qualidade do ensino. A sobrecarga de trabalho, a fragmentação do tempo pedagógico e o cansaço acumulado comprometem o acompanhamento dos alunos e a profundidade das aprendizagens. A lógica de mercado aplicada à docência transforma o professor num trabalhador itinerante, reduzindo a escola a um espaço de prestação de serviços e enfraquecendo a sua função social de formação integral do cidadão.

A proliferação do “garimpeiro escolar” não deve ser lida como falha individual, mas como sintoma de um sistema que desvaloriza a profissão docente. Baixos salários, formação insuficiente, fraca fiscalização e políticas públicas inconsistentes contribuem para a normalização deste fenómeno. Num país que assume a educação como eixo estratégico do desenvolvimento, é urgente repensar as condições de trabalho dos professores, sob pena de continuarmos a formar gerações com diplomas, mas sem aprendizagem sólida.





Comentários

Enviar um comentário

Mensagens populares