OPINIÃO: Faz sentido permanecer com o “turno da noite” no ensino superior?

O ensino nocturno nasceu como resposta a uma necessidade social concreta: permitir que trabalhadores continuem a estudar. Em tese, é um instrumento de mobilidade social, inclusão e desenvolvimento humano. Num país como Angola, onde muitos jovens entram cedo no mercado de trabalho, esta modalidade representa, à partida, uma segunda oportunidade. Contudo, a pergunta impõe-se: estamos a garantir ensino ou apenas a distribuir diplomas?

Artigo de opinião de Banza André, estudante do 3° ano de Comunicação Social da Universidade Agostinho.


A realidade vivida em muitas instituições é desconfortável. O estudante chega exausto após um dia inteiro de trabalho; o docente, muitas vezes, também. O resultado é um pacto silencioso de sobrevivência académica: aulas reduzidas, conteúdos apressados, avaliações simplificadas. Há até mesmo semestres em que o professor aparece poucas vezes, substitui sessões por trabalhos em grupo e, no final, resume tudo à soma da P1 e da P2. E não podemos chamar a isto flexibilidade pedagógica, porque não é; o que é, na verdade, é uma completa precarização do processo formativo. Estamos a formar licenciados habilitados, mas intelectualmente fragilizados.

O problema, portanto, não é a existência do ensino nocturno em si, mas a ausência de compromisso institucional e individual. O ensino não pode ser tratado como transacção comercial, onde se oferece dinheiro e recebe-se um diploma. Deve ser um contrato responsabilidade mútua: o estudante compromete-se a estudar; e o docente a ensinar. Sem isso, e se preferirmos manter a actividade lectiva nocturna nas condições actuais, significaria perpetuar uma ilusão colectiva. Se for para continuar, que seja com fiscalização efectiva, carga horária cumprida, avaliação rigorosa e verdadeira cultura académica. Caso contrário, estaremos apenas a multiplicar diplomas vazios. 

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