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OPINIÃO: Numa sociedade em crise de valores, Aristóteles volta a ser necessário

Aristóteles organiza o conhecimento em três grandes áreas do saber teorético: a metafísica, a matemática e a física, sendo que esta última inclui também a biologia e a psicologia. Estas disciplinas ocupam-se do necessário — aquilo que não pode ser diferente do que é — e, por isso, são consideradas as únicas verdadeiras ciências, na medida em que o conhecimento científico, para o filósofo, só existe sobre o que é necessário. No entanto, a vida humana não se esgota no necessário, abrindo espaço para outro domínio: o da acção. 

Artigo de opinião de Carlos Conceição, docente universitário, sociólogo e PhD em Ciências da Religião.

É precisamente nesse campo do possível — onde o ser humano age livremente — que surgem a ética e a política. Diferente das ciências teoréticas, estas áreas lidam com escolhas, decisões e comportamentos que podem sempre ser diferentes. Aristóteles distingue aqui dois tipos de actividade: a acção, que tem um fim em si mesma; e a produção, cujo fim está no objecto produzido. A ética ocupa-se da primeira, procurando orientar a conduta humana pela razão.

Qual é o fim último da acção humana?

Para Aristóteles, todas as acções visam um bem, mas nem todos os bens são finais. Alguns são apenas meios para outros fins. Deve, portanto, existir um fim supremo, desejado por si mesmo, entendido como o sumo bem. Esse bem é a felicidade, compreendida não como prazer imediato, mas como a realização plena daquilo que o homem é por natureza.

Essa realização passa pelo exercício da razão, que distingue o ser humano dos outros animais. A felicidade, portanto, reside na prática da virtude — uma actividade racional conforme à excelência. Entre essas virtudes, destaca-se a virtude moral, que consiste em encontrar o justo meio entre dois extremos viciosos: o excesso e a falta. É neste equilíbrio que se constrói uma vida ética, sustentada pela moderação, pela prudência e pelo autocontrolo.

Num contexto contemporâneo marcado por uma profunda crise de valores, este modelo ganha nova relevância. A ausência de medida nas decisões públicas e privadas, a fragilidade da justiça e a erosão de princípios básicos mostram a actualidade do pensamento aristotélico. Mais do que um sistema filosófico, a ética de Aristóteles apresenta-se como um critério prático: sem razão, sem equilíbrio e sem virtude, não há sociedade que se sustente.


Comentários

  1. Um artigo científico, digno de realce, que contribui para o pensamento doméstico angolano [...]

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