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OPINIÃO: Fé, poder e direitos: uma análise sociológica dos conflitos inter-religiosos em Angola

Os conflitos inter-religiosos não são meramente disputas teológicas; são fenómenos sociais inscritos em estruturas de poder e identidade. A sociologia clássica, com Émile Durkheim e Max Weber, demonstrou que a religião ultrapassa a esfera da crença individual e integra o tecido da organização colectiva. Ao distinguir o sagrado do profano, as comunidades religiosas constroem pertença e coesão; contudo, essa mesma fronteira simbólica pode gerar exclusão quando se transforma em critério de distinção social e política. Em contextos de pluralismo religioso, a disputa por reconhecimento e espaço público tende a intensificar-se, sobretudo quando o Estado falha em assegurar neutralidade e igualdade jurídica entre confissões.

Artigo de opinião de Carlos Conceição, docente universitário, sociólogo e PhD em Ciências da Religião
 
Após a Segunda Guerra Mundial, a consolidação dos direitos humanos estabeleceu a liberdade religiosa como princípio estruturante das democracias contemporâneas. Instrumentos internacionais consagram a igualdade perante a lei e a proibição de discriminação com base na fé. Todavia, emergem tensões quando determinadas práticas religiosas colidem com outros direitos fundamentais, como igualdade de género ou direitos das minorias sexuais. A questão central não reside na eliminação das diferenças, mas na criação de um quadro institucional capaz de equilibrar liberdade de culto e protecção da dignidade humana, evitando que a religião seja instrumentalizada como mecanismo de dominação ou legitimação da exclusão.

Globalização e desafio do diálogo

A globalização intensificou o contacto entre culturas, crenças e visões do mundo, ampliando tanto as possibilidades de diálogo quanto os riscos de radicalização. Movimentos fundamentalistas surgem, muitas vezes, como reacção à modernidade e à perda de referências tradicionais, enquanto iniciativas de cooperação inter-religiosa procuram reforçar uma cultura de paz. Sob a lente sociológica, os conflitos inter-religiosos revelam desigualdades estruturais e disputas por poder que ultrapassam a dimensão espiritual. O desafio contemporâneo consiste em fortalecer instituições democráticas, promover educação para a convivência plural e consolidar os direitos humanos como linguagem comum de regulação das diferenças.

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