EDITORIAL: Novas universidades, velhos obstáculos: os desafios do acesso ao ensino superior em Angola

Durante as últimas duas décadas, Angola assistiu a uma transformação significativa do seu sistema de ensino superior. Novas universidades públicas foram criadas em diferentes regiões do país, o sector privado expandiu-se rapidamente e a oferta de cursos superiores multiplicou-se. O objectivo, claro, era de aproximar a universidade dos cidadãos e democratizar o acesso ao ensino superior. Aqui chegados, às quantas andamos?

Por Jornal Académico | Opinião

O Higher Education Global Evidence Report 2025 (HER 2025), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), parece ter a resposta que todos procuramos. O importante relatório sobre a saúde do mostra que os países da África Subsaariana, região em que se encontra Angola, continuam a apresentar a menor taxa de acesso ao ensino superior em todo o mundo, um cenário que coloca o nosso país perante um dos maiores desafios da sua política educativa.

Dados reunidos pela UNESCO revelam que a taxa bruta de escolarização no ensino superior na África Subsaariana permanece abaixo dos 10%, enquanto que à escala mundial ronda os 44%. Em termos práticos, isso significa que menos de um em cada dez jovens em idade universitária consegue frequentar uma instituição de ensino superior. 

O paradoxo do ensino superior angolano: mais e novas universidades, os mesmos obstáculos

Embora Angola tenha acompanhado a tendência continental de expansão da rede universitária, a realidade descrita pelo importante relatório levanta dúvidas sobre o impacto efectivo desse crescimento na democratização do acesso. A existência de mais universidades não significa, necessariamente, que mais jovens estejam a conseguir entrar, permanecer e concluir uma formação superior.

A título de exemplo, o país aumentou, nos últimos anos, significativamente o número de instituições, cursos e vagas disponíveis. Contudo, ainda são inúmeros os obstáculos estruturais que limitam o acesso ao ensino superior a milhares de jovens que desejam prosseguir os estudos.

No dia a dia, as velhas lamentações de estudantes e encarregados que ouvimos, há anos que se circunscrevem à volta do que já toda a gente domina: dificuldades económicas, aumento das propinas nas instituições privadas, insuficiência de bolsas de estudo, desigualdades territoriais, limitada oferta de cursos em determinadas províncias e fragilidades do ensino secundário.

Construir apenas por construir pode não ser a solução 

O documento da UNESCO chama igualmente a atenção para um aspecto frequentemente ignorado no debate público, o de que a expansão do ensino superior não significa apenas construir novas universidades ou abrir novos cursos. A massificação deve ser acompanhada por políticas consistentes de inclusão, financiamento estudantil, apoio à permanência, garantia da qualidade e fortalecimento da investigação científica.

O verdadeiro teste, agora, passa por garantir que a universidade deixe de ser uma possibilidade para uma minoria e se transforme numa oportunidade real para um universo cada vez maior de angolanos. E se o país pretende formar mais quadros qualificados, reforçar a investigação científica e responder às exigências do desenvolvimento económico e social, terá de ir além do aumento de número de salas de aulas.

O diagnóstico apresentado pela UNESCO não deve ser encarado apenas como uma comparação estatística entre regiões do mundo, mas como um convite à reflexão sobre o futuro do ensino superior em Angola. 


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